I. - Introdução
Nessa postagem vamos descrever o Palácio Colonna que é um dos maiores e mais antigos palácios particulares de Roma.
A família Colonna remonta ao século XII e provém do povoado de Colonna, nas redondezas de Roma, de onde leva seu nome.
A construção do Palácio começou no século XIV por iniciativa da família Colonna que reside no local permanentemente há oito séculos.
Ao longo de 1600, o Palácio assumiu a forma de um grande palácio barroco, por iniciativa de três gerações da família. Trabalharam no palácio artistas famosos como Gian Lorenzo Bernini, Antônio del Grande, Carlo Fontana, Paolo Schor e muitos outros.
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| Grande Sala, Palazzo Colonna, foto HistoriacomGosto |
Foi nessa época também que houve a construção da esplêndida e majestosa Galeria Colonna que se debruça, por 76 metros, sobre Via IV Novembre;
Em resumo: Caminhar pelas salas do Palácio Colonna é entender que os Colonna nunca se viram como meros súditos. Eles eram aliados de imperadores e Papas. A suntuosidade das salas grandes, com seus espelhos venezianos e afrescos monumentais, era a moldura perfeita para a família que funcionou como um enclave imperial em Roma, garantindo que o poder de Carlos V fosse sentido dentro de cada centímetro de mármore do palácio.
Posteriormente, a partir de 1511, a família Colonna ganhou o título de "Principe Assistente al Soglio Pontificio" que era o compromisso da família de serem os principais assistentes do trono papal e com isso tinham acesso e assento privilegiado nas cerimônias e decisões civis, consolidando sua influência em Roma.
A seguir detalharemos um pouco mais dessa fascinante história e das belezas do Palácio na forma atual.
II. - A Dinastia Colonna: Mil Anos de Poder em Roma
Falar da família Colonna é, em essência, contar a própria história de Roma. Com raízes que remontam ao século XII (e lendas que os ligam aos antigos cônsules romanos), os Colonna não foram apenas espectadores da história; eles foram seus arquitetos, guerreiros e, por vezes, seus maiores rebeldes.
II.1 Uma Linhagem de Ferro e Fé
A ascensão definitiva da família ao topo da pirâmide social europeia consolidou-se com a eleição de Oddone Colonna como o Papa Martinho V (1417-1431). Ele foi o responsável por trazer o papado de volta a Roma após o Cisma do Ocidente, iniciando a reconstrução da cidade e transformando o Palácio Colonna no centro do poder mundial por quase uma década.
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| Papa Martinho V, fonte Wikipedia |
Entre a Espada e a Cruz
A história da família é marcada por uma dualidade fascinante:
a) A Glória Militar: O maior herói da linhagem, Marcantonio II Colonna, liderou a frota papal na lendária Batalha de Lepanto (1571), vencendo os otomanos e garantindo o status da família como "Defensores da Cristandade".
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| Príncipe Marcantonio II de Colonna, fonte wikipedia |
b) A Rivalidade Histórica: Por séculos, os Colonna protagonizaram uma disputa feroz (e muitas vezes sangrenta) contra a família Orsini pelo controle de Roma, uma rivalidade tão profunda que influenciou a política de sucessivos papados.
II.2 Presença Imortal
Diferente de muitas dinastias que se perderam no tempo, os Colonna mantêm sua relevância até hoje. Através de figuras como a poetisa Vittoria Colonna — musa e confidente de Michelangelo — e de uma sucessão de Príncipes que serviram ao trono papal, a família conseguiu o que poucos conseguem: atravessar dez séculos habitando o mesmo solo, preservando um patrimônio que é, simultaneamente, um lar vivo e um museu da humanidade.
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| Vitoria Colonna 2, fonte: galleriacolonna.it |
III. A Anatomia de um Gigante: Como se divide o Palácio Colonna
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| Palazzo Colonna, fachada para o jardim, foto de Peter1936F em Wikimedia |
O complexo é uma "cidade dentro da cidade", composto por diferentes alas que refletem os gostos de várias gerações da família. Podemos dividi-lo em quatro áreas principais:
III.1 - A Galeria Colonna (A Ala de Prestígio)
É a joia da coroa e a parte que o público mais conhece. Foi construída no século XVII para ser uma vitrine de poder.
As Salas: Divide-se em ambientes magníficos como a Sala da Coluna Bélica, a Grande Galeria (com seus espelhos e afrescos), a Sala dos Primitivos e a Sala da Apoteose de Martinho V.
a) Sala da Coluna Bélica
A Sala da Coluna Bélica (ou Belínea) é o portal de entrada para a monumental Grande Galeria e deve seu nome à coluna de mármore vermelho sobre um pedestal que fica no centro da sala. Para o seu blog, aqui estão os pontos essenciais:
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| Sala da coluna bélica, fonte: palazzo colonna |
A "Bala de Canhão": É nesta sala, nos degraus que descem para a Galeria, que você encontra o projétil que atingiu o palácio em 1849 — um detalhe que prova que a história militar da família não estava apenas nos quadros, mas batia à sua porta.
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| Bala de canhão encravada na escadaria |
"Em 1849, a Itália estava em chamas com os ideais de unificação (Risorgimento). O Papa Pio IX foi forçado a fugir de Roma e uma república democrática foi proclamada por líderes como Giuseppe Mazzini e Giuseppe Garibaldi.
O Papa, então, pediu ajuda às potências católicas para retomar o controle da cidade. A França, sob o comando de Luís Napoleão (futuro Napoleão III), enviou um exército para cercar e bombardear Roma para restaurar o poder papal."
De onde veio a bala?
Durante o cerco, as tropas francesas estavam posicionadas no alto do Monte Gianicolo (Janículo), de onde tinham uma visão privilegiada da cidade.
O Disparo: Em 20 de junho de 1849, um canhão francês disparou do Gianículo em direção ao centro histórico.
O Trajeto: A bala atravessou o telhado do palácio, passou por uma das janelas da Grande Galeria e atingiu exatamente o degrau de mármore onde está até hoje.
A Curiosidade: "O Palácio Colonna sobreviveu aos bárbaros e aos rivais por séculos, mas foi a artilharia francesa — enviada para proteger o Papa — que deixou a cicatriz mais famosa em seus degraus de mármore. A família decidiu manter a bala de 1849, que não explodiu, no local exato do impacto, transformando um erro de cálculo militar em um símbolo eterno de resiliência."
Lembremos que após 1511 a Família Colonna, tinha o título de "Principe Assistente al Soglio Pontificio" e portanto o dever de defender o trono e os direitos papais. b) Sala da Apoteose
A sala é dedicada a Oddone Colonna, que se tornou o Papa Martinho V (1417–1431). Ele é, sem dúvida, o membro mais importante da dinastia.
Martinho V foi o Papa que encerrou o "Grande Cisma do Ocidente", o período em que a Igreja teve dois (e até três) papas ao mesmo tempo. Foi ele quem trouxe o Papado de volta a Roma definitivamente, após o período em Avignon.
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| Sala da Apoteose, fonte galleriacolonna.it |
O Estilo: É o triunfo do Barroco Romano, onde as molduras douradas, o mármore colorido e os tetos pintados criam uma experiência imersiva.
c) Sala dos primitivos
Na história da arte, o termo "Primitivos" refere-se aos artistas que trabalharam antes do auge do Renascimento (séculos XIV e XV).
O Prestígio da Antiguidade: Para uma família que se orgulha de ter raízes na Roma Antiga, possuir obras desses "pioneiros" era uma forma de mostrar que o seu palácio era um guardião da evolução da civilização cristã e artística.
Intimismo: Diferente da Grande Galeria, que é feita para o deslumbramento público, a Sala dos Primitivos tem uma escala mais humana e espiritual, convidando à observação detalhada.
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| Sala dos Primitivos, foto galleriacolonna.it |
Virgem da Anunciação - Guercino, 1640 a 1650
Esta pintura na Galleria Colonna é intitulada A Virgem da Anunciação (ou Virgin Annunciate) e foi pintada pelo mestre barroco italiano Guercino (nascido Giovanni Francesco Barbieri)
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Virgem da Anunciação, Guercino, 1640 a 1650, foto HistoriacomGosto |
A pintura é uma representação serena da Virgem Maria no momento da Anunciação, caracterizada pela iluminação etérea e pela expressão introspectiva típicas do estilo tardio de Guercino. Na imagem, Maria é retratada lendo um livro sagrado, um detalhe iconográfico comum que simboliza sua piedade e aceitação da mensagem divina.
d) Sala da Capela
III.2. Apartamentos Privados (Apartamento Princesa Isabelle)
Enquanto a Galeria era para recepções oficiais, os apartamentos eram o coração da vida doméstica da nobreza.
Diferente de outras alas do palácio que foram convertidas puramente em museus ou escritórios, a Princesa Isabelle viveu nesses aposentos até o fim de sua vida, em 1984. Ela amava profundamente o lugar e cuidava pessoalmente de cada detalhe. O fato de ela ter vivido ali por 75 anos garantiu que o ambiente não fosse descaracterizado.
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| Princesa Isabelle, foto galleriacolonna.it |
Pequena história da Princesa Isabelle Colonna -"A Vice Rainha de Roma"
Nascida Isabelle Sursock, de uma família aristocrática libanesa (frequentemente chamados de "Os Rothschild do Oriente"), ela casou-se com o Príncipe Marcantonio VII Colonna em 1909.
Isabelle não foi apenas uma moradora; ela foi a alma do palácio durante grande parte do século XX. Sua importância é tão vasta que ela era apelidada de a "Vice-Rainha de Roma". Enquanto a monarquia italiana caía e a política mudava, Isabelle manteve o Palácio Colonna como um centro inabalável de influência, cultura e diplomacia.
“Grande dama de corte, inteligente, culta, conservadora no sentido mais puro e coerente, após a queda da monarquia tinha lhe acontecido substituir Maria José como “rainha suplente”, oferecendo recepções reais às quais eram admitidas unicamente cabeças coroadas e, entre os burgueses, apenas financistas e banqueiros, com a condição que, obviamente, não fossem divorciados“
(desta forma a recorda Laura Laurenzi, no jornal diário La Repubblica de 18 de novembro de 1984, por ocasião do funeral dela).
Nos últimos anos de vida, seu apartamento tinha-se transformado num local de tesouros que ela gostava de mostrar apenas aos amigos mais íntimos.
Atmosfera: Ocupado até meados do século XX pela Princesa Isabelle, o apartamento mantém um ar de "casa vivida", com fotos de família, móveis preciosos e uma coleção de vistas de Vanvitelli.
Sala Vanvitelli
O apartamento abriga a maior coleção privada de obras de Gaspard van Wittel (Vanvitelli). Ele foi o mestre que ensinou os europeus a "verem" Roma através de suas pinturas detalhistas.
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| Sala Vanvitelli, foto galleriacolonna.it |
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Sala de Festas
Era o lugar onde a Princesa Isabelle recebia a "nata" da sociedade romana, chefes de Estado e artistas para eventos menores, jantares de gala privados e chás ou até mesmo audição de música e dança para grupos seletos.
Enquanto a Galeria era um museu de poder, esta sala era uma sala de estar funcional. Era ali que a Princesa exercia seu papel de "Rainha não coroada de Roma".
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| Sala de festas, foto galleriacolonna.it |
Sala della fontana
Era uma sala de passagem e recepção que impressionava os convidados pelo som da água e pelo frescor.
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| Sala da fonte, foto galleriacolonna.it |
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III.3. O Pavilhão Pio e os Pátios Internos
O palácio é estruturado em torno de pátios que garantiam luz e ventilação, mas também serviam para o movimento de carruagens.
O Pavilhão Pio abriga parte da coleção de arte e é uma das alas mais antigas do palácio, mostrando a transição das estruturas medievais para o Renascimento.
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| Pavilhão Pio, sala da Cornucópia, foto galleriacollona.it |
III. 4. O Jardim do Quirinal (O Refúgio Vertical)
Diferente dos jardins horizontais de Versailles, o jardim do Colonna é ascendente.
Pontes de Conexão: O palácio é tão grande que possui pontes internas que cruzam a rua (Via della Pilotta) para levar os moradores diretamente dos aposentos para o jardim na encosta do morro.
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| Pontes de Conexão, foto HistoriacomGosto |
O Cenário: É composto por sebes de buxo, estátuas clássicas, fontes e restos do antigo Templo de Serápis (do século III d.C.), culminando em um terraço com uma vista de tirar o fôlego para o Altar da Pátria e o Capitólio.
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| Escadaria principal dos jardins, foto HistoriacomGosto |
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| Visão dos telhados de Roma, foto HistoriacomGosto |
IV. O Olhar do Colecionador: A Acumulação de Arte como Símbolo de Poder
No Palácio Colonna, as pinturas não foram escolhidas apenas pela estética; cada tela e escultura servia como uma peça no tabuleiro do prestígio político e religioso da Europa. A coleção que vemos hoje é o resultado de séculos de um "olhar de dono", onde a arte era a moeda mais valiosa da nobreza.
IV.1 - O Prestígio Pós-Lepanto e o Grand Tour
A coleção deu um salto monumental após a Batalha de Lepanto (1571). A vitória de Marcantonio II Colonna contra os otomanos elevou a família a um status quase divino em Roma. A partir desse período, os Colonna passaram a encomendar obras que imortalizassem sua glória.
IV.2 Curadoria Secular: Uma Galeria com "Alma"
Diferente do Louvre ou do Vaticano, onde as obras são deslocadas de seus contextos originais para paredes impessoais, na Galeria Colonna a arte permanece "em casa".
Contexto Vivo: Muitas molduras foram esculpidas especificamente para as paredes onde estão penduradas até hoje. As obras "conversam" com o mobiliário, com os afrescos do teto e com a luz que entra pelas janelas originais.
A Coleção de "Primitivos": Um diferencial raro é a sala dedicada aos Primitivos (obras dos séculos XIV e XV), que mostra que a família já colecionava arte muito antes do auge do Renascimento. Lá, encontramos joias como o Rei David e São Jerônimo (do círculo de Signorelli) e peças de Bernardino di Mariotto, mantidas com o mesmo zelo que as grandes telas barrocas.
IV.3 - A Arte que Salva a História
O processo de acumulação também foi um ato de preservação. Ao contrário de outras famílias nobres que venderam seus acervos em tempos de crise, os Colonna instituíram o fideicomisso no século XIX — um instrumento jurídico que proibia a venda ou dispersão da coleção. É graças a essa decisão que hoje podemos ver o palácio exatamente como ele era há 300 anos.
IV.4 - Algumas obras de arte da coleção
a) Comedor de feijões = Aniballe Carracci, 1580 a 1590
A pintura é famosa por sua abordagem realista e "popular", retratando um vislumbre da vida cotidiana de uma pessoa comum no século XVI, um tema raro para as grandes obras daquela época.
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| Comedor de feijão, Sala Apoteose |
b) São Paulo Eremita - Guercino, 1637 a 1638
A obra retrata São Paulo de Tebas, considerado o primeiro eremita cristão, em um momento de penitência e oração no deserto. O estilo barroco de Guercino é evidente no uso dramático de luz e sombra (tenebrismo) e na anatomia detalhada do santo.
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| São Paulo eremita, sala maior |
c) Virgem com o Menino Jesus adormecido, Santa Ana e São João Batista, Agnolo Bronzino (Agnolo di Cosimo), 1540 a 1550
A pintura captura um momento de ternura onde a Virgem Maria observa o Menino Jesus dormindo profundamente, enquanto o jovem São João Batista se aproxima. A figura idosa atrás de Maria é identificada como Santa Ana, a mãe de Maria (e não São José, o que explica sua observação correta sobre a composição).
Este estilo é um exemplo perfeito do Maneirismo, com a pele das figuras tendo uma aparência de mármore polido e cores frias e sofisticadas
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| Virgem com o Menino Jesus..., Agnolo Bronzino, 1540 a 1550 |
d) Moisés com as tábuas da Lei - Guercino, 1624
A pintura mostra Moisés em uma composição de meio corpo, vestindo um manto vermelho vibrante que contrasta com o fundo escuro (estilo típico do tenebrismo barroco). Ele está segurando as Tábuas da Lei, que contêm os Dez Mandamentos, e apoia-se em um bastão. O artista capturou Moisés com uma expressão de profunda contemplação e reverência, destacando sua barba farta e sua fisionomia idosa.
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Moisés com as tábuas da Lei, Guercino, 1624, foto historiacomgosto |
e) Um jovem Homem bebendo
A cena retrata um homem em uma taberna, cercado por elementos de natureza-morta como pães, queijos e uma garrafa revestida de vime, capturando um momento de prazer cotidiano com o forte contraste de luz e sombra típico do estilo caravaggesco
f) São Tiago Maior - Sandro Boticelli e sua oficina, 1485 a 1490
A pintura apresenta o santo com seus atributos tradicionais de peregrino: o manto vermelho e o cajado, contra um fundo arquitetônico clássico que era comum no final do século XV em Florença.
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São Tiago Maior, Boticelli e Oficina, 1485 a 1490, foto HistoriacomGosto |
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