1. - Virgem Dolorosa
A "Virgem Dolorosa" (ou Mater Dolorosa), pintada por Bartolomé Esteban Murillo por volta de 1660-1670, é uma das obras mais emblemáticas do Barroco espanhol e uma joia da coleção do Museu do Prado.
Historicamente, a imagem representa Maria durante os eventos do Calvário. Ela personifica a dor de uma mãe que testemunha: O momento em que Jesus é apresentado ao povo flagelado (Ecce Homo), O caminho da cruz (Via Crucis), A crucificação e a morte de seu filho.
Aqui mostramos o quadro e os pontos principais para entender a profundidade e o impacto desta pintura:
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La Dolorosa, Murilo, 1660 a 1670, Museu do Prado, Madrid
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1.1. Humanidade e Ternura (Estilo de Murillo)
Diferente das versões de outros artistas que focavam em uma dor lancinante ou mística, Murillo humaniza a Virgem. Ela não parece uma figura distante ou divina de forma inacessível; ela é uma mãe sofrendo. Sua dor é doce, melancólica e contida. Murillo era mestre em criar essa conexão sentimental, o que tornava suas obras extremamente populares para a devoção privada.
1.2. A Composição e o Foco
Plano Próximo: O artista utiliza um plano fechado (busto), o que obriga o espectador a confrontar diretamente o rosto de Maria. Não há distrações de cenário; o fundo é escuro para que a luz se concentre apenas nela.
O Olhar e as Mãos: Maria não olha para o espectador. Seu olhar está baixo, voltado para dentro, em um momento de reflexão profunda sobre o sacrifício do filho.
1.3. A Técnica das Cores
O Véu Branco e o Manto Escuro: O contraste entre o véu branco (símbolo de pureza) e o manto escuro (símbolo da divindade e do luto) é executado com uma suavidade técnica impressionante. As dobras do tecido parecem reais e táteis.
Sfumato: Murillo utiliza uma técnica de transição suave de sombras no rosto dela, o que confere uma aparência aveludada à pele, mesmo sob o peso da tristeza.
1.4. O Contexto do Contra-Reforma
Esta pintura foi criada no auge da Contra-Reforma na Espanha. O objetivo era usar a arte para despertar a piedade e a compaixão nos fiéis. Ao ver a "Virgem Dolorosa" de Murillo, o fiel deveria sentir a dor de Maria como se fosse a sua própria, facilitando uma experiência religiosa emocional e direta.
1.5. Curiosidade:
Esta obra era originalmente o par (pendente) de um "Ecce Homo" (Cristo com a coroa de espinhos), também pintado por Murillo. Juntos, eles formavam um conjunto devocional completo: o sofrimento do Filho e a compaixão da Mãe.
1.6. Outras Versões
Murillo pintou diversas iterações deste tema, muitas vezes como parte de "pendentes" (par de quadros), onde a Mater Dolorosa era exibida ao lado de uma imagem de Ecce Homo (Cristo sofrendo), destinadas a inspirar devoção espiritual. Outra que considethramos muito linda está em uma coleção particular e foi leiloada pela Sotheby's em dezembro de 2020.
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| La Dolorosa, Murilo, 1660 a 1670, Coleção Particular |
Devido à enorme procura por imagens de devoção privada, ele e o seu atelier criaram várias versões, que hoje se encontram espalhadas pelo mundo:
Museu do Prado (Madrid): É a versão mais famosa (c. 1660-1670), conhecida pela sua suavidade técnica e profunda expressão de compaixão.
Museu de Belas Artes de Sevilha: Abriga uma versão de 1665 que é considerada uma das mais autênticas e detalhadas do mestre.
Museu de Arte de El Paso (Texas, EUA): Possui uma versão significativa, originalmente encomendada para a Catedral de Sevilha (c. 1672-1678).
Outras Localizações: Existem exemplares autógrafos ou de atelier em coleções como o Museu Hermitage (São Petersburgo), o Museu de Belas Artes de Budapeste e diversas coleções privadas que surgem periodicamente em leilões da Sotheby's e Christie's.
2. Bartolomé Esteban Murilo
Bartolomé Esteban Murillo foi um pintor barroco espanhol. Embora seja mais conhecido por suas obras religiosas, Murillo também produziu um número considerável de pinturas de mulheres e crianças da época.
Esses retratos vívidos e realistas de floristas, crianças de rua e mendigos constituem um registro extenso e cativante do cotidiano de seu tempo. Murillo nasceu filho de Gaspar Esteban e María Pérez. Ele pode ter nascido em Sevilha ou em Pilas, uma cidade menor da Andaluzia. Sabe-se que foi batizado em Sevilha em 1618, o filho caçula de uma família de quatorze irmãos. Seu pai era barbeiro e cirurgião.
Após a morte de seus pais, em 1627 e 1628, ele ficou sob a tutela do marido de sua irmã, Juan Agustín Lagares. Murillo raramente usava o sobrenome do pai, adotando, em vez disso, o sobrenome de sua avó materna, Elvira Murillo. Murillo iniciou seus estudos de arte em Sevilha com Juan del Castillo, parente de sua mãe (seu tio, Antonio Pérez, também era pintor).
Suas primeiras obras foram influenciadas por Francisco de Zurbarán, Jusepe de Ribera e Alonso Cano, compartilhando a forte abordagem realista desses artistas.
A grande importância comercial de Sevilha na época garantiu que ele fosse influenciado por obras de outras regiões. Familiarizou-se com a pintura flamenga e com o "Tratado sobre Imagens Sacras" de Molanus (Ian van der Meulen ou Molano). À medida que sua pintura se desenvolvia, suas obras mais importantes evoluíram para um estilo refinado que agradava ao gosto burguês e aristocrático da época, o que se demonstra especialmente em suas obras religiosas católicas.
Em 1642, aos 26 anos, mudou-se para Madri, onde provavelmente teve contato com a obra de Velázquez e pôde apreciar os trabalhos de mestres venezianos e flamengos nas coleções reais. As cores vibrantes e as formas delicadamente modeladas de seus trabalhos posteriores sugerem essas influências.
Em 1645, ele retornou a Sevilha e casou-se com Beatriz Cabrera y Villalobos, com quem teve onze filhos. Naquele ano, pintou onze telas para o convento de São Francisco, o Grande, em Sevilha. Essas obras, que retratam os milagres dos santos franciscanos, variam entre o tenebrismo zurbarániano do Êxtase de São Francisco e um estilo suavemente luminoso (como em A Morte de Santa Clara) que se tornou típico da obra madura de Murillo.
Segundo a historiadora de arte Manuela B. Mena Marqués, "em ... a Levitação de São Giles (geralmente conhecida como a "Cozinha dos Anjos", Paris, Louvre) e a Morte de Santa Clara (Dresden, Gemäldegal, Alte Meister), os elementos característicos da obra de Murillo já se evidenciam: a elegância e a beleza das figuras femininas e dos anjos, o realismo dos detalhes da natureza-morta e a fusão da realidade com o mundo espiritual, extraordinariamente bem desenvolvida em algumas das composições".
Também concluída por volta de 1645 foi a primeira das muitas pinturas de crianças de Murillo, O Jovem Mendigo (Museu do Louvre), na qual a influência de Velázquez é evidente. Após a conclusão de um par de quadros para a Catedral de Sevilha, ele começou a se especializar nos temas que lhe trouxeram os maiores sucessos: a Virgem com o Menino e a Imaculada Conceição.
Depois de outro período em Madri, de 1658 a 1660, retornou a Sevilha. Foi um dos fundadores da Academia de Belas Artes, partilhando a sua direção, em 1660, com o arquiteto Francisco Herrera, o Jovem. Este foi o seu período de maior atividade, tendo recebido numerosas encomendas importantes, entre as quais os retábulos para o mosteiro agostiniano, as pinturas para Santa María la Blanca (concluídas em 1665) e outras. Faleceu em Sevilha, em 1682, poucos meses depois de ter caído de um andaime enquanto trabalhava num fresco na igreja dos Capuchinhos, em Cádiz.
3. Referências
https://artvee.com/dl/mater-dolorosa-4/ : Histórico de Murilo
Google Gemini: Descrição do quadro